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Há muito que queríamos ir a Belmonte, umas das 12 Aldeias Históricas de Portugal!

Terra de tolerância e de visão do mundo, Belmonte é um livro de História ao ar livre. Da ocupação romana aos Descobrimentos, do período negro da Inquisição à resistência nas invasões francesas, da ditadura à liberdade, Belmonte preserva, na memória, aquilo que o tempo danifica naturalmente…Mais importante que os edifícios, são as pessoas e o que elas representam…Ficaram curiosos? Venham daí!

A primeira etapa da nossa viagem começa em Portugal e termina no Brasil.

Terra de Vera Cruz

Pedro Álvares Cabral, descobridor do Brasil a 22 de abril de 1500, nasceu em Belmonte em 1467. É, por isso, muito comum encontrar cidadãos brasileiros de visita à aldeia histórica à procura das origens do seu descobridor.

Para quem quer conhecer a história, o melhor mesmo é começar pelo Castelo de Belmonte, que data do século XIII e que, ao longo dos séculos, foi sendo alvo de obras de adaptação a novas funções, ampliação ou restauro. No século XV, passou a ser residência da família Cabral. Um incêndio no século XVII obrigou a família a deixar o castelo e a mudar-se para a Casa dos Condes/Solar dos Cabrais, atual Museu dos Descobrimentos.

O Castelo de Belmonte foi classificado Monumento Nacional em 1927. Nos anos 90 do século passado, foram ali descobertos vestígios romanos.

Além de visitas ao público, o Castelo de Belmonte acolhe, desde 1992, um anfiteatro para a apresentação de espetáculos.

No exterior do Castelo, foi instalada a cruz de madeira de Pau Brasil oferecida nos anos cinquenta do século XX pelo presidente brasileiro Juscelino Kubitschek de Oliveira. A cruz é uma réplica da que foi utilizada na primeira missa celebrada no Brasil, por ordem de Pedro Álvares Cabral.

O mesmo Chefe de Estado brasileiro inaugurou, em 1963, uma escultura em Belmonte de Pedro Álvares Cabral da autoria de Álvaro de Brée. A estátua localiza-se no Largo Dr. António José de Almeida. Ainda no centro histórico, mas no Largo 5 de outubro, situa-se a Igreja Matriz de Belmonte. Inaugurada em 1940, possui a imagem de Nossa Senhora da Esperança que terá acompanhado Pedro Álvares Cabral na sua viagem de descoberta do Brasil.

Ainda na zona do Castelo de Belmonte, quem atravessa o Largo de Santiago, depara-se com a Igreja de Santiago e o Panteão dos Cabrais/Capela dos Cabrais, um conjunto classificado Monumento Nacional. Diz-se que terá sido no século XIII a construção da Capela de Nossa Senhora da Piedade. Já a Capela dos Cabrais terá sido edificada em 1433 pelos pais de Pedro Álvares Cabral, sofrendo reformas ao longo do tempo. Aqui estão depositadas as cinzas de Pedro Álvares Cabral e outros da sua família

Também nesta zona envolvente ao Castelo de Belmonte, encontramos as Capelas de Santo António e do Calvário. A primeira data do século XV e apresenta um brasão com as armas das famílias Queiroz, Gouveia e Cabral. Já a origem da segunda remonta ao século XIX. A porta principal está decorada com os instrumentos da Paixão de Cristo.

Já aqui falamos da Casa dos Condes/Solar dos Cabrais, antiga residência da família Cabral. Atualmente alberga a Biblioteca e Arquivo Municipal. Ao lado, foi construído, de raiz, o Museu dos Descobrimentos /Centro de Interpretação “À Descoberta do Novo Mundo” (DNM), um espaço interativo que dá a conhecer ao visitante, desde 2009, a história dos Descobrimentos. É uma viagem de 500 anos sobre a descoberta do Brasil por Pedro Álvares Cabral.

A presença dos Judeus

Deixamos Pedro Álvares Cabral e rumamos a outra faceta de Belmonte.

Começamos o nosso trajeto pela Praça da República, ou Largo do Pelourinho, onde se encontra o antigo Paço do Concelho, com a torre do relógio, datado do século XV. Diz-se que, no século XIX, por altura das Invasões Francesas, o General Junot mandou picar as pedras de armas presentes no edifício, por Belmonte não se ter rendido.

É nesta zona do Pelourinho que existem várias lojas de artesanato local, velharias e cafés.

Com a ordem de expulsão dos judeus por D. Manuel no século XV e a instalação em Portugal da Inquisição, a comunidade judaica refugiou-se em Belmonte onde viveu em segredo até ao século XX.

Na zona da antiga judiaria de Belmonte, entre as ruas Direita e Fonte da Rosa, é possível encontrar pequenas casas de granito, térreas, com os símbolos do judaísmo.

Em 2005 foi inaugurado o Museu Judaico, que conta a história da última comunidade criptojudaica que sobreviveu no nosso país, dando a conhecer ao visitante peças desde a Idade Média até ao séc. XX, utilizadas por judeus e cristãos-novos no quotidiano ou nas práticas religiosas.

A Sinagoga BET-ELIAU é o atual local de culto e fica próximo do Castelo de Belmonte. Projetado pelo arquiteto Neves Dias, o templo foi inaugurado em 1996 por ocasião dos 500 anos da ordem de D. Manuel de expulsão dos judeus de Portugal. Para além de estar orientada para Jerusalém, a Sinagoga apresenta o candelabro “Hanukkah” na porta e a estrela de David nos portões. Ainda junto à Sinagoga, no jardim, sobressai o candelabro. Também no Largo do Pelourinho, em frente à Casa da Judiaria, existe um exemplar.

Museu do Azeite e Ecomuseu do Zêzere

Para quem tiver curiosidade em explorar o ciclo do azeite, a Câmara Municipal de Belmonte abriu em 2005 o Museu do Azeite. Localizado no antigo lagar municipal, o espaço museológico dá a conhecer todo o processo de fabrico do azeite, tão importante para o desenvolvimento da região. É possível ver as velhas mós e prensas utilizadas no processo, degustar os vários tipos de azeite e comprar produtos típicos locais.

Inaugurado em 2001, o Ecomuseu do Zêzere dá a conhecer os 240 km de um rio que nasce na Serra da Estrela e tem a sua foz no rio Tejo. Belmonte faz parte do seu percurso.

O Ecomuseu do Zêzere está instalado na antiga Tulha dos Cabrais. Troço a troço, ficamos a conhecer os elementos que marcam a fauna e a flora existentes ao longo do seu percurso.

Zeca Afonso

José Afonso, mais conhecido por Zeca Afonso, viveu em Belmonte durante a sua infância, depois de regressar a Portugal vindo de Moçambique no final dos anos 30 do século passado. Foi em Belmonte que completou a escola primária. Viveu em casa do seu tio, então presidente da Câmara e simpatizante do regime ditatorial em vigor.

Cantor e compositor português, músico de intervenção, Zeca Afonso é o autor de “Grândola, Vila Morena”, canção utilizada como senha pelo Movimento das Forças Armadas na Revolução do 25 de Abril.

Em sua homenagem, foi instalada, no ano passado, uma escultura, no Largo Zeca Afonso, da autoria do escultor Pedro Figueiredo, que retrata, em tamanho real, Zeca Afonso no seu último concerto no Concerto dos Recreios, em Lisboa, em 1983.

Presença romana

Já tínhamos ouvido falar desta torre. Localizada em Colmeal da Torre, a Torre de Centum Cellas (também conhecida como Torre de São Cornélio), com dois pisos, é um dos monumentos mais enigmáticos de Belmonte, pois ninguém sabe muito bem para que servia. Ao longo dos anos, foram muitas as teorias: templo, prisão, albergue, acampamento romano…

Escavações efetuadas na década de 90 do século passado demonstraram que teria sido uma villa romana do Século I d.C., propriedade do abastado cidadão romano Lucius Caecilius e dos seus descendentes que se dedicariam à exploração agrícola e de estanho que abundava na região.

Monumento Nacional desde 1927, a torre é apenas o elemento central (e mais bem conservado) de um amplo complexo descoberto nas escavações. Salas, corredores, escadarias, caves e pátios são algumas das estruturas que, ao longo de séculos, foram destruídas ou remodeladas, e das quais existem apenas vestígios.

A ocupação romana também é visível na villa da Quinta da Fórnea, um conjunto de ruínas que remontam ao século II. Terá sido um núcleo habitacional de uma família rica, que possuía estruturas como um lagar de azeite, produção de vinho, transformação de cereais, fundição de ferro, estábulos para animais, sistema de caleiras para o abastecimento e circulação de água, termas, colunas e espaços ajardinados.

Gostaram da nossa viagem a Belmonte? Não é incrível? Uma aldeia que tem o mundo todo dentro de si! E já não é pouco!

 

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