Erguido sobre uma colina que domina o vale fértil do Mondego, o Castelo de Montemor-o-Velho é uma das mais impressionantes fortalezas medievais de Portugal. A sua silhueta recortada no horizonte, com muralhas imponentes e torres altivas, continua a impor respeito e admiração a quem o contempla. Desde tempos remotos, esta fortaleza tem sido o coração histórico da vila, sentinela de pedra que testemunhou batalhas, amores trágicos e decisões que mudaram o rumo do país.
Dos primeiros povoadores ao castelo medieval
A história de Montemor-o-Velho começa muito antes da construção do castelo. O sítio foi ocupado desde a Pré-história, atraindo Romanos, Visigodos e, mais tarde, Muçulmanos, seduzidos pela fertilidade das margens do Mondego e pelo estanho que descia das serras da Beira Alta. Vestígios romanos ainda hoje subsistem na base da torre de menagem, integrados nas pedras que sustentam a fortaleza medieval.
As primeiras referências escritas a Montemor remontam ao século IX, quando Ramiro I das Astúrias conquistou o local aos muçulmanos em 848. Mas a instabilidade dominou esta região durante séculos: cristãos e muçulmanos alternaram o controlo do castelo, numa sucessão de campanhas que refletia a turbulenta história da Reconquista Ibérica. O famoso general árabe al-Mansur tomou o castelo em 990, reconstruindo-o à sua maneira, até que, em 1064, o rei Fernando Magno de Leão reconquistou definitivamente Coimbra e estabilizou a fronteira no Mondego.
Foi então que o conde D. Sesnando Davides, governador de Coimbra, recebeu a missão de reorganizar e reforçar toda a região. Mandou reconstruir ou edificar novas fortificações, entre elas o castelo de Montemor-o-Velho, que se tornou o bastião defensivo mais importante do Baixo Mondego. A partir daí, a fortaleza assumiu um papel central na defesa do reino nascente.
A afirmação de Portugal e os tempos de glória
Com o nascimento da nação portuguesa, Montemor-o-Velho manteve o seu prestígio e relevância. Recebeu Carta de Foral em 1095, confirmada depois por D. Henrique, pai de D. Afonso Henriques. Já no século XII, o castelo era uma das fortalezas mais bem guarnecidas do território, protegendo as rotas entre Coimbra e o litoral atlântico.
Durante o reinado de D. Sancho I, a vila tornou-se parte dos infantados — terras destinadas às filhas do rei — e coube à infanta D. Teresa governar Montemor a partir de 1211. Mas o castelo voltaria a ser palco de disputas dinásticas: após a morte de Sancho I, D. Afonso II recusou reconhecer as doações testamentárias feitas às suas irmãs, levando D. Teresa a refugiar-se entre estas muralhas. O conflito só terminou graças à intervenção do Papa Inocêncio III, que em 1216 ordenou que o castelo fosse entregue à Ordem dos Templários.
Nos séculos seguintes, Montemor-o-Velho continuou a ser cenário de tensões políticas e de reformas militares. D. Dinis, D. Afonso IV e D. Pedro, Duque de Coimbra, todos deixaram a sua marca neste lugar que foi simultaneamente quartel e residência senhorial. As obras de reforço do século XIV conferiram-lhe a aparência robusta e majestosa que hoje conhecemos, com a adição da barbacã e de novos troços de muralha.
O destino de Inês de Castro
Mas nenhuma história marcou tanto o imaginário português como a que aqui se decidiu em 1355. Foi dentro destas muralhas que D. Afonso IV reuniu os seus conselheiros para discutir o futuro de Inês de Castro, amante do seu filho, o infante D. Pedro. A corte via na ligação um perigo político, temendo a influência castelhana que os irmãos de Inês exerciam sobre o príncipe. Da reunião em Montemor saiu a decisão que selaria um dos episódios mais trágicos e lendários da história de Portugal: a execução de Inês, dias depois, no Paço de Santa Clara, em Coimbra.
Dizem que as pedras frias do castelo ainda ecoam as vozes daqueles conselheiros e guardam, em silêncio, o peso da decisão que transformou uma história de amor em tragédia eterna.
Da Idade Moderna à atualidade
Nos séculos que se seguiram, o castelo continuou a ser um símbolo de poder e prestígio. No reinado de D. Afonso V, foi atribuído o título de Marquês de Montemor-o-Velho a D. João de Portugal, mais tarde duque de Bragança. Já durante a crise de 1580, que levou à perda da independência nacional, o castelo serviu de ponto de apoio às tentativas de resistência do Prior do Crato.
Durante as Invasões Francesas, em 1807, o castelo foi ocupado e saqueado pelas tropas de Junot e, mais tarde, devastado na retirada das forças de Masséna. No século XIX, com a extinção das ordens religiosas, parte das suas dependências foi transformada em cemitério, e algumas das suas pedras reaproveitadas pela população local.
Felizmente, o valor histórico e patrimonial de Montemor-o-Velho não foi esquecido. Classificado como Monumento Nacional em 1910, o castelo foi alvo de campanhas de restauro e conservação ao longo do século XX. Em 1877, uma das suas torres foi adaptada como Torre do Relógio, e na década de 1990, uma delicada intervenção do arquiteto João Mendes Ribeiro transformou as ruínas do Paço das Infantas numa acolhedora casa de chá, hoje encerrada, mas ainda lembrada pelos visitantes.
Arquitetura e visita
A fortaleza ergue-se a 56 metros de altitude, dominando toda a planície do Mondego, com os arrozais a perder de vista. A sua planta irregular combina o castelejo original com uma cerca principal e uma ampla barbacã ameada. As muralhas, pontuadas por torres quadradas e semicirculares, envolvem um espaço vasto, que outrora poderia abrigar milhares de homens de armas.
Entre as construções mais notáveis destacam-se o Paço das Infantas, o cercado norte, a Torre de Menagem e, sobretudo, a Igreja de Santa Maria da Alcáçova, fundada em 1095 e reconstruída no século XVI no esplendor do estilo manuelino. No seu interior, de três naves, destacam-se colunas espiraladas e esculturas de rara beleza, como a imagem da Nossa Senhora do Ó e o Anjo da Anunciação de Mestre Pero, datadas do século XIV.
Passear pelas muralhas do castelo é viajar no tempo. O olhar perde-se sobre os campos verdejantes e o curso tranquilo do Mondego, lembrando que, outrora, este rio era uma fronteira viva entre dois mundos em conflito. Hoje, o Castelo de Montemor-o-Velho é um convite à contemplação e à memória — uma fortaleza que guarda, no silêncio das suas pedras, a história de Portugal.
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