No alto de uma colina verdejante, onde o tempo parece descansar entre muralhas antigas e histórias sussurradas pelo vento, ergue-se o Castelo de Ourém — um dos mais belos castelos de Portugal.
Vista de longe, a silhueta triangular das suas torres impõe-se sobre a paisagem, coroando a vila medieval e oferecendo uma panorâmica arrebatadora sobre o vale da ribeira de Seiça. Mas é ao aproximar-se que o visitante percebe: este não é apenas um castelo. É um símbolo de poder, fé e memória, que atravessou séculos de glória, destruição e renascimento.
Das origens lendárias à conquista de D. Afonso Henriques
A história de Ourém mistura-se com a lenda. Diz-se que o nome deriva de Oureana, a moura que, ao apaixonar-se por um cavaleiro cristão e converter-se ao cristianismo, deu o seu novo nome à terra. Muito antes disso, o local já era habitado — primeiro por povos pré-históricos, depois por romanos, visigodos e muçulmanos. Estes últimos teriam erguido aqui uma fortificação, atraídos pela abundância de água e pela posição estratégica.
Em 1136, D. Afonso Henriques conquista o castelo aos mouros e entrega a povoação à sua filha, D. Teresa, que lhe concedeu foral e ordenou a construção das primeiras muralhas em pedra. Assim nascia o embrião do que viria a ser um dos mais impressionantes complexos militares e residenciais do Portugal medieval.
Um palco de realeza, intrigas e poder
O Castelo de Ourém assistiu a episódios de drama e de ambição dignos de uma crónica cavaleiresca. Foi refúgio da infanta D. Mécia Lopes de Haro, raptada no século XIII durante uma disputa entre fações reais; foi propriedade da Rainha Santa Isabel, que aqui encontrou serenidade entre as colinas ribatejanas; e foi palco da ascensão dos Condes de Ourém, cuja influência moldou a paisagem e a história da vila.
Mas o grande impulsionador da transformação do castelo foi D. Afonso, o 4.º Conde de Ourém, neto do Condestável D. Nuno Álvares Pereira. Visionário e poderoso, mandou erguer, no século XV, o majestoso Paço dos Condes, uma residência senhorial de inspiração veneziana, que unia elegância e força militar num só conjunto. À sua volta, mandou construir também a Igreja da Colegiada de Nossa Senhora das Misericórdias, cuja cripta abriga o seu túmulo, esculpido por Diogo Pires-o-Velho, uma das mais belas obras da escultura tumular portuguesa.
Entre glória, ruína e renascimento
O esplendor do castelo resistiu durante séculos, mas nem mesmo as pedras mais firmes escapam à passagem do tempo. O terramoto de 1755 deixou marcas profundas, e as Invasões Francesas de 1810 agravaram a destruição. As muralhas desmoronaram parcialmente, o Paço perdeu a cobertura, e a vila mergulhou num silêncio melancólico que duraria gerações.
Foi só no século XX que começou o processo de recuperação, impulsionado pela Fundação da Casa de Bragança e pela Direção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais. O castelo foi classificado como Monumento Nacional em 1910, e as obras de restauro prolongaram-se por décadas, devolvendo ao conjunto o seu perfil majestoso e a dignidade de outrora.
Mais recentemente, em 2021, uma profunda reabilitação devolveu ao Paço dos Condes de Ourém o brilho perdido: novos pavimentos em madeira de castanho, caixilharias em latão e vidro, uma cobertura em zinco e soluções museológicas modernas tornaram o espaço apto para exposições e eventos culturais. Hoje, o visitante percorre as salas com um misto de reverência e fascínio, entre luzes suaves e vistas que se abrem sobre o vale.
Um castelo para todos os sentidos
Explorar o Castelo de Ourém é uma experiência que transcende a história. As suas torres — especialmente a Torre de D. Mécia, onde a infeliz rainha foi enclausurada — guardam ecos de amores e traições. A cisterna ogival, no centro da praça de armas, revela a engenhosidade medieval, mantendo água fresca durante todo o ano. E do Terreiro de Santiago, dominado pela estátua do Condestável D. Nuno Álvares Pereira, o olhar perde-se nos campos e montes ondulantes que desenham o coração de Portugal.
Ao descer para a vila medieval, o tempo abranda. As ruas empedradas, o pelourinho barroco, a fonte gótica e as casas brancas de pedra transportam-nos para um cenário que parece saído de um romance histórico.
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