“Sintra do Alentejo”. Assim se referiu D. Pedro V a Castelo de Vide quando, a 7 de outubro de 1861, aqui se deslocou, naquela que seria a última visita do monarca, que viria a falecer a 11 de novembro do mesmo ano.
Aliás, em 1870, foi erigida na Praça D. Pedro V, nas proximidades da Igreja Matriz Santa Maria da Devesa, uma estátua para perpetuar a visita do monarca a Castelo de Vide.
Terra conhecida pela gastronomia, doçaria, enchidos, praças, jardins, monumentos, igrejas, lojas de comércio tradicional e artesanato, Castelo de Vide guarda, na sua História, um valioso capítulo da História de Portugal.
Castelo Medieval de Castelo de Vide
Monumento Nacional desde 1910, o Castelo de Castelo de Vide começou a ser construído no século XIII, o reinado de D. Afonso III, e foi concluído no século XIV, no reinado de D. Afonso IV. No século XV, as defesas foram reforçadas e, já no século XVII, durante a Guerra da Restauração, foram edificados dois fortes.
Das cinco torres do castelo restam as estruturas de duas torres. Uma explosão do paiol de pólvora em 1705 foi responsável pela atual configuração.
Alojados no castelo, junto à Torre de Menagem, situam-se dois núcleos museológicos. No Centro de Interpretação do Megalitismo, é possível descobrir o património megalítico da região e os muitos menires, antas e necrópoles neolíticas. Já o Núcleo Museológico de História e Arquitetura Militar dá a conhecer a evolução das muralhas e torres do reinado de D. Dinis às Invasões Francesas.
Sinagoga
Castelo de Vide possui um dos mais relevantes exemplos da presença dos judeus em Portugal, desde o século XIII, refletida na arquitetura do núcleo histórico da Judiaria, entre o castelo e a Fonte da Vila.
A Sinagoga, localizada na rua da Judiaria / rua da Fonte, foi o local de reunião da comunidade judaica até ao século XV. Com o fim da liberdade de culto dos judeus em Portugal, o edifício foi alvo de alterações e adaptações no século XVI, servindo, no século XVII, de residência.
O edifício foi adquirido pela Câmara Municipal de Castelo de Vide, reabilitado, e transformado em núcleo museológico. Abriu em 2009 e dá a conhecer ao visitante as vivências da comunidade judaica que aqui viveu e os contributos dados para o desenvolvimento da vila, a história de castelo-videnses como o médico cristão-novo Garcia de Orta (natural de Castelo de Vide, século XVI, faleceu em Goa), os judeus na diáspora e a herança judaica.
Casa da Inquisição
No nosso périplo por Castelo de Vide, recomendaram-nos uma visita à Casa da Inquisição, um centro interpretativo, aberto em 2023, que, de uma forma pedagógica e elucidativa, conduz o visitante pelas diferentes fases de um processo inquisitorial, numa abordagem à Inquisição Portuguesa, considerada um dos períodos mais negros da História de Portugal.
Estabelecido a 23 de maio de 1536, a pedido do rei D. João III ao Papa Paulo III, e terminado a 31 de março de 1821, o Tribunal do Santo Ofício prendeu, julgou, perseguiu, castigou, torturou e matou, ao longo de 300 anos, milhares de pessoas por alegadas práticas de crenças diferentes da fé católica.
Castelo de Vide recebeu várias vezes a visita do “Visitador”. 203 castelo-videnses foram alvo de processos inquisitoriais por alegadas práticas judaizantes.
A Casa da Inquisição está instalada na Casa do Morgado, uma casa setecentista de grande valor histórico-arquitetónico, e retrata a vida da cristã-nova Guiomar Mendes, desde o momento em que entrou no cárcere em 1662 até ao minuto final, ou seja, o auto-de-fé, tendo morrido queimada na fogueira. As personagens parecem mesmo reais. É incrível!
Casa da Cidadania Salgueiro Maia
Castelo de Vide é a terra natal de Salgueiro Maia. A casa onde nasceu, a 1 de julho de 1944, na rua de Santo Amaro, foi recentemente recuperada.
Fernando Salgueiro Maia foi comandante da coluna militar da Escola Prática de Cavalaria, em Santarém, que, no dia 25 de abril de 1974, ocupou a Praça do Comércio e cercou o Quartel do Carmo, em Lisboa, levando à rendição do então presidente do Conselho, Marcello Caetano, e à definitiva queda da ditadura do Estado Novo.
Salgueiro Maia faleceu a 3 de abril de 1992, em Lisboa. No seu testamento, manifestou a vontade de ser sepultado em Castelo de Vide, em campa casa, e deixou o seu espólio ao município para que fosse objeto de musealização, nomeadamente o que está relacionado com a sua participação nos acontecimentos relacionados com a revolução do 25 de Abril de 1974.
Aberta desde 2021, no núcleo do castelo, a Casa da Cidadania Salgueiro Maia exibe várias peças, como uniformes, divisas, flâmulas, estandartes, pendões, insígnias, diplomas, louvores, documentos militares, fichas escolares, cartazes, fotografias, armas, miniaturas de carros de combate, vídeos, entre outras.
O grande destaque da exposição é o megafone com que, a 25 de Abril de 1974, no Largo do Carmo, Salgueiro Maia intimou Marcello Caetano a render-se, mas também o uniforme e o chapéu militar que usou naquele dia.
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