Situada no concelho de Melgaço, no extremo norte de Portugal, junto à fronteira com a Galiza, a aldeia de Castro Laboreiro encontra-se integrada no Parque Nacional da Peneda-Gerês. É uma terra de montanha, de granito, rios, matos e extensos planaltos, mas também de uma extraordinária história de adaptação humana a um território de clima exigente. A identidade local foi moldada durante séculos pela pastorícia, pela agricultura de montanha, pela transumância sazonal e por uma forma muito particular de povoamento, organizada entre brandas, inverneiras e lugares fixos.
Uma terra moldada pela montanha
Castro Laboreiro guarda vestígios de uma ocupação humana com milhares de anos.
No planalto de Castro Laboreiro encontram-se extensas necrópoles megalíticas, testemunho de comunidades agropastoris que viveram nesta região há pelo menos cinco mil anos.
O património arqueológico da região inclui antas, mamoas, monumentos funerários e outros vestígios associados às comunidades pré-históricas. O Conjunto Megalítico e de Arte Rupestre do Planalto de Castro Laboreiro encontra-se atualmente classificado como Sítio de Interesse Público, reforçando a importância arqueológica deste território.
Ao longo dos séculos, a ocupação humana foi-se adaptando às características da montanha. Mais tarde, as comunidades fortificadas da Idade do Ferro deixaram também a sua marca na paisagem do Norte peninsular.
O primeiro foral conhecido foi concedido por D. Afonso III, em 1271, elevando a povoação a vila. Castro Laboreiro manteve durante séculos a sua autonomia municipal, tendo sido sede de concelho até à extinção do município em 1855, quando passou a integrar o concelho de Melgaço. Recebeu posteriormente novo foral, concedido por D. Manuel em 1513.
Castelo de Castro Laboreiro
No topo de um monte, a cerca de mil metros de altitude, encontram-se as ruínas do Castelo de Castro Laboreiro, um dos grandes símbolos da região.
A fortificação domina uma paisagem extraordinária e permite compreender imediatamente a importância estratégica que este lugar teve durante a Idade Média. A posição elevada proporcionava um domínio visual sobre os vales e as serras envolventes e, sobretudo, sobre uma zona de fronteira onde a defesa do território assumia particular importância.
O castelo é classificado como Monumento Nacional desde 1944.
As ruínas que hoje encontramos são apenas uma parte do que terá sido a fortificação medieval com origens anteriores à fundação de Portugal. A planta e os vestígios conservados permitem reconhecer a antiga estrutura defensiva, embora o passar dos séculos, alterações e períodos de abandono tenham deixado uma fortaleza muito diferente daquela que existiu na Idade Média.
A subida a partir da povoação é curta, mas o caminho é irregular e deve ser feito com calçado adequado. Não é uma caminhada particularmente longa, mas a inclinação e o piso pedregoso aconselham algum cuidado.
A recompensa está no topo.
Da antiga fortificação, a paisagem abre-se sobre as montanhas e os vales de Castro Laboreiro, oferecendo uma das melhores perspectivas sobre a relação entre a aldeia e o território que a rodeia.
É uma visita que vale tanto pelo património como pela paisagem.
Igreja Matriz
No centro da povoação encontra-se a Igreja de Santa Maria da Visitação, habitualmente conhecida como Igreja Matriz de Castro Laboreiro.
A documentação patrimonial identifica uma fundação muito antiga, com possíveis origens pré-românicas, seguida de diferentes campanhas de obras. O aspecto atual resulta sobretudo de transformações posteriores, incluindo uma importante remodelação no século XVIII.
O exterior é relativamente austero, marcado pelo granito e pelo adro murado. No interior conserva-se, entre outros elementos, uma pia baptismal românica, enquanto o edifício apresenta diferentes vestígios das várias fases construtivas.
Um detalhe curioso é o relógio de sol existente no edifício, elemento discreto que pode passar despercebido a quem visite a igreja sem atenção aos pormenores.
A Igreja Matriz está classificada como Imóvel de Interesse Público desde 1993.
Pelourinho
Outro dos pontos que merece uma paragem no centro da aldeia é o Pelourinho de Castro Laboreiro.
Datado de 1560, o pelourinho está diretamente ligado à história administrativa da antiga vila. É um exemplar de arquitetura civil associado à tradição manuelina e encontra-se classificado como Imóvel de Interesse Público desde 1933.
A sua história também é curiosa. O pelourinho foi desmontado no século XIX, tendo os seus elementos sido dispersos, e posteriormente foi reconstruído e recolocado no local original, diante do antigo edifício da Casa da Câmara.
Hoje, integrado no tecido urbano da povoação, pode parecer um monumento pequeno. Mas é precisamente essa escala que torna interessante a visita: é um vestígio material de uma época em que Castro Laboreiro era uma vila com jurisdição e administração próprias.
Núcleo Museológico de Castro Laboreiro
Para compreender realmente Castro Laboreiro, vale a pena entrar no Núcleo Museológico de Castro Laboreiro.
O espaço é dedicado à história, à paisagem e às tradições da região, apresentando a relação dos habitantes com o território e explicando um dos aspetos mais singulares da cultura local: o sistema de brandas, inverneiras e lugares fixos.
O museu ajuda a perceber algo que, à primeira vista, pode parecer estranho ao visitante: por que razão existiam diferentes núcleos habitacionais relativamente próximos uns dos outros?
A resposta está no clima e na altitude.
A organização tradicional do território não era simplesmente uma divisão administrativa. Era uma estratégia de sobrevivência.
Junto ao núcleo museológico existe também uma Casa Castreja, onde foi recriado o ambiente de uma habitação tradicional da segunda metade do século XX. É uma visita especialmente interessante para perceber como era o quotidiano de uma família numa região onde a vida doméstica estava profundamente ligada à agricultura, à pastorícia e às condições naturais.
Brandas e inverneiras
Poucos aspetos da cultura de Castro Laboreiro são tão fascinantes como o sistema de povoamento sazonal.
Durante séculos, muitas famílias mantiveram ligações a diferentes núcleos habitacionais, deslocando-se conforme a época do ano. As brandas, situadas nas zonas mais elevadas, eram procuradas durante os meses mais amenos. No verão, a altitude oferecia melhores condições para os animais e para o aproveitamento dos pastos.
Quando chegava o inverno e o frio se tornava particularmente rigoroso nas áreas altas, as famílias deslocavam-se para as inverneiras, situadas em cotas mais baixas e abrigadas.
Entre estes espaços encontravam-se ainda os lugares fixos, como a própria Vila de Castro Laboreiro, onde a população podia permanecer ao longo do ano.
O Cão de Castro Laboreiro
O Cão de Castro Laboreiro é uma raça autóctone portuguesa originária desta região montanhosa. Tradicionalmente utilizado na guarda e proteção dos rebanhos, desenvolveu características adequadas a um ambiente em que o gado tinha de ser protegido de predadores, nomeadamente do lobo.
Em 2022 foi inaugurada, no alto da serra de Castro Laboreiro, uma escultura dedicada ao cão que se tornou um dos símbolos da região.
A obra, da autoria de Albano Martins, pretende homenagear a relação entre a raça, os pastores e a proteção dos rebanhos.
As “viúvas dos vivos”
Durante décadas, a emigração marcou profundamente a vida das comunidades locais. Muitos homens partiram em busca de trabalho, deixando para trás mulheres, crianças e idosos. A memória popular conservou a expressão “viúvas dos vivos” para designar mulheres cujos maridos estavam emigrados.
A emigração alterou profundamente o equilíbrio demográfico e social de muitas aldeias do Norte de Portugal, e Castro Laboreiro não foi exceção.
Em homenagem a estas mulheres, foi inaugurada em 2020 a escultura “Capa Castreja”, uma obra de arte da autoria da artista Madalena Lima.
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