Localizada a cerca de 120 quilómetros de Colombo, esta cidade portuária desempenhou, desde tempos muito antigos, um papel central nas rotas marítimas do Oceano Índico. Ao longo dos séculos, comerciantes árabes, persas, indianos, chineses e malaios aqui aportaram em busca das riquezas do antigo Ceilão, sobretudo das suas especiarias, pedras preciosas e madeiras exóticas.
Mais tarde, portugueses, holandeses e britânicos deixariam igualmente uma marca profunda na cidade. O resultado é um dos conjuntos históricos coloniais mais bem preservados da Ásia, onde influências europeias e cingalesas coexistem de forma harmoniosa.
Hoje, Galle é um destino que combina património histórico, cultura, gastronomia, praias e um ambiente descontraído, sendo uma das visitas obrigatórias para quem percorre a costa sul do Sri Lanka.
Galle e as antigas rotas comerciais
Muito antes da chegada dos europeus, Galle já era um dos portos mais importantes do Oceano Índico.
A sua excelente localização geográfica permitia estabelecer ligações entre o Médio Oriente, a costa oriental de África, a Índia, o Sudeste Asiático e a China. O porto natural oferecia abrigo seguro às embarcações durante as monções, tornando-se um ponto de escala privilegiado para mercadores de diferentes culturas.
Entre as mercadorias que aqui eram negociadas encontravam-se:
- canela;
- pimenta;
- cardamomo;
- pedras preciosas, sobretudo safiras;
- marfim;
- madeiras tropicais;
- seda;
- porcelanas chinesas.
A importância comercial de Galle era já reconhecida na Antiguidade. O geógrafo grego Cláudio Ptolomeu referiu um porto nesta região no século II, e diversos cronistas árabes mencionaram o intenso comércio realizado na costa sul do Ceilão durante a Idade Média.
Existe ainda uma teoria segundo a qual Galle poderá corresponder à antiga Társis mencionada na Bíblia, destino das embarcações do rei Salomão. A hipótese baseia-se nas mercadorias descritas nos textos bíblicos — ouro, marfim, madeira preciosa e animais exóticos —, mas continua a ser objeto de debate entre os historiadores e não existe qualquer consenso científico que permita confirmá-la.
Independentemente dessa teoria, é inegável que Galle desempenhou durante muitos séculos um papel essencial no comércio marítimo internacional.
A chegada dos portugueses
A história europeia de Galle começou no início do século XVI.
Em 1505, uma expedição portuguesa comandada por Lourenço de Almeida chegou ao Ceilão, inaugurando a presença portuguesa na ilha. Nas décadas seguintes, Portugal procurou controlar o lucrativo comércio da canela, estabelecendo alianças com alguns reinos locais e construindo fortificações ao longo da costa.
Galle rapidamente se revelou um porto de enorme importância estratégica.
Em 1588, durante o reinado de D. Filipe I de Portugal, foi construída a Fortaleza de Santa Cruz, considerada a origem do atual Forte de Galle.
A fortificação portuguesa ocupava a península onde hoje se encontra o centro histórico. Embora fosse bastante mais pequena do que o recinto atualmente existente, permitia proteger o porto e controlar o comércio marítimo da região.
Além da componente militar, os portugueses introduziram novas técnicas construtivas, promoveram a expansão do cristianismo e desenvolveram importantes relações comerciais com os habitantes locais.
Ainda hoje é possível encontrar no Sri Lanka apelidos de origem portuguesa — como Fernando, Perera, Fonseka, Rodrigo, Mendis ou Dias —, um legado que testemunha a influência lusa durante cerca de 135 anos.
A conquista holandesa e a transformação do forte
Em 1640, no contexto da guerra travada entre Portugal e a Companhia Holandesa das Índias Orientais, Galle foi conquistada pelos holandeses.
Contrariamente ao que muitas vezes se afirma, os holandeses não construíram um forte totalmente novo. A Fortaleza de Santa Cruz já existia e constituiu a base das obras realizadas nas décadas seguintes.
Reconhecendo o extraordinário valor estratégico do porto, os holandeses decidiram ampliar profundamente a fortificação portuguesa.
Entre meados e finais do século XVII foram construídas novas muralhas, bastiões, fossos e portas monumentais, transformando Galle numa das mais sofisticadas cidades fortificadas da Ásia.
Além das estruturas defensivas, foi criado um traçado urbano organizado segundo os princípios do urbanismo holandês, com ruas retas, quarteirões regulares e um eficiente sistema de drenagem, adaptado ao clima tropical.
Grande parte das muralhas que hoje podemos observar resulta precisamente destas campanhas de obras realizadas pelos holandeses.
O período britânico
Em 1796, durante as Guerras Napoleónicas, os britânicos ocuparam o Ceilão sem encontrar grande resistência por parte dos holandeses.
Ao contrário do que aconteceu noutras colónias, os britânicos decidiram preservar praticamente toda a estrutura do Forte de Galle.
Durante o século XIX foram introduzidas algumas alterações, como a construção do atual farol, melhorias administrativas e novos edifícios públicos, mas a configuração urbana permaneceu praticamente inalterada.
A abertura do porto de Colombo, mais moderno e adequado aos grandes navios a vapor, fez com que Galle perdesse gradualmente a sua importância comercial. Esse aparente declínio acabou por beneficiar a preservação do seu património histórico, já que o desenvolvimento urbano se deslocou para outras zonas da cidade.
O Forte de Galle: uma fortaleza portuguesa transformada pelos holandeses
Hoje, o Forte de Galle constitui um dos mais extraordinários exemplos de património colonial preservado em toda a Ásia.
É importante compreender que a sua história resulta da sobreposição de várias épocas.
A fundação da fortaleza é portuguesa, remontando a 1588, com a construção da Fortaleza de Santa Cruz.
Os holandeses ampliaram-na profundamente a partir de 1640, criando grande parte das muralhas e bastiões atualmente existentes.
Os britânicos, por sua vez, optaram essencialmente por conservar a estrutura herdada, introduzindo apenas algumas adaptações.
Esta sucessão de influências — portuguesa, holandesa, britânica e cingalesa — explica a singularidade do conjunto urbano.
Em 1988, o Forte de Galle foi inscrito na Lista do Património Mundial da UNESCO, que o considera um dos melhores exemplos da interação entre a arquitetura europeia e as tradições construtivas do sul da Ásia.
Ao contrário de muitos centros históricos classificados, o forte continua plenamente habitado.
Dentro das muralhas vivem centenas de residentes, funcionando igualmente hotéis boutique, restaurantes, cafés, galerias de arte, lojas de artesanato, pequenas livrarias e diversas instituições culturais.
Essa convivência entre património e vida quotidiana constitui uma das características que mais impressionam quem visita Galle.
Caminhar pelas muralhas
Poucas experiências são tão agradáveis como percorrer, a pé, as muralhas que envolvem toda a cidade histórica.
O passeio permite apreciar uma sucessão de paisagens extraordinárias.
De um lado estende-se o Oceano Índico, com as suas águas azul-turquesa e as ondas que se desfazem junto às rochas.
Do outro surgem os telhados vermelhos das antigas casas coloniais, igrejas, ruas arborizadas e edifícios históricos.
Perder-se pelas ruas históricas do forte
Se existe um local onde vale a pena caminhar sem destino, esse lugar é o interior do Forte de Galle.
As ruas estreitas, ladeadas por edifícios coloniais cuidadosamente preservados, convidam a descobrir a cidade ao ritmo da caminhada. Em poucos minutos é possível passar por uma antiga igreja protestante, uma mesquita, um pequeno café instalado numa casa do século XVIII, uma galeria de arte contemporânea ou uma joalharia especializada nas famosas safiras do Sri Lanka.
Grande parte do traçado urbano atualmente existente foi definido pelos holandeses durante o século XVII, mas muitas construções conservam elementos da fortificação portuguesa original ou foram posteriormente adaptadas durante o período britânico.
Ao contrário de outras cidades coloniais da Ásia, Galle nunca perdeu a sua função residencial. Muitas das casas históricas continuam a ser habitadas pelas mesmas famílias há várias gerações, o que confere autenticidade ao conjunto urbano.
Entre as ruas mais conhecidas encontram-se:
- Pedlar Street, atualmente uma das mais animadas, repleta de cafés, restaurantes e hotéis boutique;
- Church Street, onde se concentram alguns dos edifícios históricos mais importantes;
- Lighthouse Street, que conduz ao farol;
- Leyn Baan Street, antiga rua dos artesãos durante o período holandês.
Cada uma possui uma personalidade própria e merece ser explorada com calma.
Uma arquitetura moldada por várias culturas
Uma das maiores riquezas de Galle reside precisamente na sua arquitetura.
Embora muitos edifícios sejam frequentemente descritos como “holandeses”, a realidade é bastante mais interessante.
A cidade resulta da sobreposição de diferentes influências ao longo de mais de quatro séculos.
Os portugueses lançaram as bases da fortificação e introduziram os primeiros edifícios europeus permanentes.
Os holandeses reorganizaram completamente o espaço urbano segundo os princípios do urbanismo do século XVII, construindo novas habitações, armazéns, edifícios administrativos e igrejas.
Os britânicos acrescentaram alguns edifícios públicos e modernizaram determinadas infraestruturas.
Ao mesmo tempo, construtores locais adaptaram todos estes modelos europeus às condições climáticas do Sri Lanka.
É por isso que muitas casas apresentam:
- varandas largas;
- pátios interiores;
- janelas altas;
- tetos elevados;
- telhados inclinados com amplos beirais.
Estas soluções permitiam melhorar a ventilação natural e proteger os edifícios das fortes chuvas tropicais.
A UNESCO considera precisamente esta adaptação da arquitetura europeia às técnicas construtivas asiáticas uma das principais razões para a classificação do Forte de Galle como Património Mundial.
O Farol de Galle
Um dos locais mais fotografados da cidade é o elegante Farol de Galle.
O primeiro farol foi construído pelos britânicos em 1848, tornando-se um importante ponto de apoio à navegação ao longo da costa sul do Ceilão.
Em 1934, um incêndio destruiu completamente essa estrutura.
Cinco anos mais tarde, em 1939, foi inaugurado o atual farol, construído a poucos metros do anterior.
Com cerca de 26 metros de altura, continua em funcionamento e constitui um dos símbolos mais reconhecidos de Galle.
O contraste entre o branco do farol, as antigas muralhas de pedra e o azul intenso do Oceano Índico cria uma das imagens mais emblemáticas de todo o Sri Lanka.
A Torre do Relógio
Na extremidade norte das muralhas ergue-se outro dos monumentos mais conhecidos do forte: a Torre do Relógio.
Construída pelos britânicos em 1883, funciona simultaneamente como memorial dedicado ao médico Peter Daniel Anthonisz, uma figura muito respeitada na cidade durante o século XIX.
A partir desta zona das muralhas obtêm-se excelentes vistas sobre a cidade moderna e sobre o antigo porto.
A Igreja Reformada Holandesa
Entre os edifícios históricos mais importantes encontra-se a Igreja Reformada Holandesa, também conhecida como Groote Kerk.
Construída em 1755 durante a administração holandesa, é um dos templos protestantes mais antigos do sul da Ásia.
O seu interior conserva diversos elementos originais, incluindo:
- lápides funerárias holandesas embutidas no pavimento;
- um púlpito em madeira finamente trabalhado;
- mobiliário colonial;
- um antigo órgão de tubos.
A simplicidade do edifício contrasta com a riqueza histórica que encerra, tornando-o uma visita particularmente interessante para quem aprecia arquitetura e património.
Outras igrejas históricas
A diversidade religiosa de Galle é visível em vários edifícios espalhados pelo forte.
Entre eles destaca-se também a Catedral de Todos os Santos (All Saints’ Church), construída durante o período britânico, no final do século XIX.
A sua arquitetura neogótica distingue-se claramente dos edifícios holandeses e testemunha mais uma etapa da longa história colonial da cidade.
O Museu Marítimo Nacional
Instalado num antigo armazém colonial junto à Porta Velha (Old Gate), o Museu Marítimo Nacional permite compreender a estreita ligação entre Galle e o mar.
As suas coleções incluem:
- instrumentos de navegação;
- modelos de embarcações;
- mapas antigos;
- objetos recuperados de naufrágios;
- exposições dedicadas à fauna marinha do Sri Lanka.
O museu ajuda também a perceber a importância que o porto teve durante vários séculos nas rotas comerciais do Oceano Índico.
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