Se há uma imagem que imediatamente nos transporta para o Sri Lanka, é a das intermináveis colinas verdes cobertas por plantações de chá. Mas antes de chegarmos a esse cenário idílico, a estrada reserva-nos uma das mais belas surpresas das Terras Altas: as impressionantes Cataratas de Ramboda.
Foi precisamente aqui que fizemos a nossa primeira paragem antes de seguirmos para a famosa plantação de chá de Labookellie. Entre montanhas envoltas em neblina, vales verdejantes e estradas sinuosas, esta região mostra um lado completamente diferente do Sri Lanka tropical das praias e dos coqueiros.
Cataratas de Ramboda: uma das mais belas quedas de água do Sri Lanka
Localizadas entre Kandy e Nuwara Eliya, as Cataratas de Ramboda são consideradas uma das cascatas mais bonitas do país. Com cerca de 109 metros de altura, a água precipita-se por uma encosta rochosa coberta de vegetação exuberante, criando um espetáculo natural impressionante.
A cascata forma-se a partir do rio Panna Oya, um afluente do rio Kotmale, e a sua força varia conforme a época do ano. Durante a estação das chuvas, o caudal aumenta significativamente, tornando a paisagem ainda mais dramática.
Ao longo da estrada existem vários miradouros que permitem observar a cascata de diferentes perspetivas. O som da água a ecoar pelas montanhas, o ar fresco e a vegetação tropical criam um ambiente quase mágico.
É uma paragem relativamente rápida, mas absolutamente obrigatória para quem percorre esta estrada panorâmica rumo a Nuwara Eliya.
Das plantações de café ao império do chá
Hoje é impossível imaginar o Sri Lanka sem chá. No entanto, até meados do século XIX, as montanhas da então colónia britânica de Ceilão eram ocupadas quase exclusivamente por plantações de café.
Tudo mudou quando uma doença provocada pelo fungo Hemileia vastatrix, conhecida como “ferrugem do café”, devastou praticamente toda a produção da ilha. Em poucos anos, milhares de hectares ficaram inutilizados e os proprietários procuraram uma cultura alternativa que pudesse salvar a economia.
Foi então que o chá entrou definitivamente na história do Sri Lanka.
Curiosamente, a primeira planta de chá chegou ao país em 1824, trazida da China para o Jardim Botânico de Peradeniya apenas para fins experimentais. Algumas décadas mais tarde, seriam introduzidas variedades provenientes da região indiana de Assam, que demonstraram uma extraordinária adaptação ao clima das montanhas do Sri Lanka e deram origem à indústria que hoje conhecemos.
James Taylor: o homem que mudou a história do Sri Lanka
A transformação da economia do país está intimamente ligada ao escocês James Taylor, considerado o pai do Chá do Ceilão.
Em 1867, Taylor plantou as primeiras mudas comerciais de chá numa área com cerca de oito hectares da propriedade de Loolecondera (Loolkandura), perto de Kandy.
Os resultados foram surpreendentes.
Em poucos anos, o sucesso da experiência levou outras propriedades a abandonarem definitivamente o café e a investirem na produção de chá.
Taylor dedicou-se não só ao cultivo, mas também ao aperfeiçoamento de todo o processo de fabrico. Chegou mesmo a construir artesanalmente os primeiros equipamentos para enrolar e secar as folhas.
O crescimento da indústria foi extraordinário. Em poucas décadas, o Chá do Ceilão conquistou os mercados internacionais e tornou-se o principal produto de exportação da ilha, estatuto que ainda hoje mantém.
Labookellie: um mar verde nas montanhas
Depois da visita às Cataratas de Ramboda seguimos para uma das plantações mais conhecidas da região: Labookellie Tea Estate.
À medida que nos aproximamos, a paisagem transforma-se completamente. As colinas parecem ter sido cuidadosamente desenhadas, formando um enorme tapete verde onde milhares de pequenos arbustos crescem em linhas perfeitamente alinhadas.
Não é difícil perceber porque razão esta região recebeu o apelido de “Pequena Inglaterra”. O clima é muito mais fresco do que no resto do Sri Lanka, com temperaturas agradáveis durante quase todo o ano, neblina frequente e um ambiente montanhoso que faz lembrar algumas paisagens britânicas.
A altitude, que ronda os 1.500 a 2.000 metros, cria as condições ideais para produzir alguns dos chás de maior qualidade do mundo.
Como nasce uma chávena de Chá do Ceilão
Uma visita à fábrica de Labookellie permite acompanhar todas as etapas da produção do chá.
O processo começa muito antes de a folha chegar à fábrica.
As trabalhadoras percorrem diariamente as plantações e colhem apenas o rebento e as duas folhas superiores de cada planta, garantindo assim a melhor qualidade possível.
Depois inicia-se um processo rigorosamente controlado:
- Colheita manual das folhas;
- Murchamento para reduzir a humidade;
- Enrolamento das folhas para libertar os óleos naturais;
- Oxidação, responsável pela cor e pelos aromas característicos;
- Secagem em fornos industriais;
- Classificação segundo a qualidade e dimensão das folhas;
- Embalagem para distribuição em todo o mundo.
Ao contrário do que muitas pessoas pensam, os diferentes tipos de chá — preto, verde, branco e oolong — podem provir exatamente da mesma planta (Camellia sinensis). O que muda é o método de processamento das folhas.
No final da visita é habitual participar numa degustação onde se podem provar diferentes variedades produzidas na plantação.
É também uma excelente oportunidade para comprar chá diretamente na origem, muitas vezes com uma qualidade superior à encontrada nas lojas internacionais.
As mulheres que dão vida às plantações
Um dos aspetos mais marcantes da visita é observar as mulheres que trabalham diariamente nas plantações.
Grande parte delas descende de trabalhadores tâmeis trazidos do sul da Índia pelos britânicos durante o período colonial, sobretudo ao longo do século XIX, para suprir a necessidade de mão de obra nas plantações.
Vestidas com roupas coloridas e transportando grandes cestos às costas, percorrem quilómetros pelas encostas íngremes enquanto colhem cuidadosamente as folhas.
É um trabalho extremamente exigente, realizado muitas vezes sob chuva, nevoeiro ou sol intenso, e continua a ser essencial para a produção do famoso Chá do Ceilão.
Apesar da crescente mecanização noutras partes do mundo, muitas plantações do Sri Lanka continuam a privilegiar a colheita manual, uma vez que permite selecionar apenas as folhas de melhor qualidade.
Muito mais do que uma plantação de chá
Visitar Labookellie não é apenas conhecer uma fábrica.
É compreender como uma simples planta transformou completamente a economia do Sri Lanka, alterou a paisagem das montanhas e marcou profundamente a história e a identidade do país.
Entre vales cobertos por um interminável manto verde, pequenas aldeias, neblina matinal e o aroma do chá acabado de produzir, percebe-se facilmente porque esta região é uma das mais bonitas de toda a ilha.
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