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O Reino de Kandy e a resistência aos portugueses, holandeses e britânicos

Aninhada entre montanhas cobertas por uma vegetação exuberante, no coração do Sri Lanka, Kandy é uma cidade que desperta imediatamente a curiosidade de quem a visita. Longe das praias tropicais do sul e das antigas cidades arqueológicas do chamado Triângulo Cultural, Kandy oferece uma experiência completamente diferente, onde a história, a espiritualidade e a tradição continuam profundamente presentes no quotidiano.

À primeira vista, a cidade conquista pelo ambiente tranquilo proporcionado pelo lago que ocupa o seu centro histórico, pelos templos escondidos entre as colinas e pelas ruas movimentadas onde convivem monges budistas, vendedores ambulantes e habitantes locais. Mas basta permanecer alguns dias para perceber que Kandy representa muito mais do que uma simples etapa num roteiro pelo Sri Lanka. Trata-se da cidade mais sagrada do país para os budistas cingaleses e da última capital do antigo reino que resistiu durante séculos ao domínio colonial europeu.

Foi aqui que os últimos reis cingaleses governaram uma ilha constantemente ameaçada pelas potências europeias. Enquanto portugueses, holandeses e britânicos controlavam progressivamente as zonas costeiras, Kandy manteve-se independente graças à sua localização estratégica nas montanhas centrais e à capacidade dos seus governantes em explorar o difícil relevo da região. Durante mais de duzentos anos, esta cidade tornou-se o símbolo da resistência nacional e da preservação da cultura cingalesa.

Hoje, Kandy continua a desempenhar um papel fundamental na identidade do Sri Lanka. É o principal centro religioso do budismo Theravada no país, acolhe a mais importante relíquia budista da ilha e conserva um património histórico que lhe valeu a classificação como Património Mundial da UNESCO em 1988. Ao mesmo tempo, funciona como porta de entrada para as famosas plantações de chá das terras altas, sendo uma paragem quase obrigatória para quem percorre a espetacular linha ferroviária entre Colombo e Ella.

Mais do que um destino turístico, Kandy é um lugar onde passado e presente convivem naturalmente. As cerimónias religiosas continuam a realizar-se diariamente, os festivais tradicionais atraem milhares de peregrinos e muitas das antigas tradições da corte kandiana permanecem vivas através da dança, da música e das celebrações culturais.

Onde fica Kandy?

Kandy situa-se no centro geográfico do Sri Lanka, cerca de 115 quilómetros a nordeste de Colombo, a capital comercial do país. Localizada a aproximadamente 500 metros de altitude, encontra-se rodeada pelas montanhas da Província Central, uma região conhecida pelas suas florestas tropicais, vales verdejantes e plantações de chá.

Esta localização privilegiada faz com que o clima seja bastante mais ameno do que nas zonas costeiras. Embora as temperaturas se mantenham agradáveis durante todo o ano, normalmente entre os 20 ºC e os 30 ºC, a altitude proporciona noites relativamente frescas, especialmente entre dezembro e fevereiro. A chuva também é frequente, contribuindo para a vegetação luxuriante que caracteriza toda a região.

Além da sua importância histórica, Kandy ocupa uma posição estratégica para quem pretende explorar o interior da ilha. A cidade funciona como ponto de ligação entre o Triângulo Cultural — onde se encontram Anuradhapura, Polonnaruwa, Sigiriya e Dambulla — e as montanhas centrais, famosas pelas plantações de chá de Nuwara Eliya, Haputale e Ella.

É também daqui que parte uma das viagens de comboio mais bonitas do mundo. A linha ferroviária que liga Kandy a Ella atravessa montanhas, túneis, pontes coloniais, florestas e extensas plantações de chá, oferecendo paisagens que se tornaram um dos grandes cartões-postais do Sri Lanka.

Porque é Kandy tão importante para o Sri Lanka?

Poucas cidades no Sri Lanka concentram tanta importância histórica, política e religiosa como Kandy. Durante mais de dois séculos foi a capital do último reino independente da ilha, tornando-se o principal símbolo da resistência cingalesa contra a expansão colonial europeia. Ao mesmo tempo, consolidou-se como o centro espiritual do país graças à presença da Relíquia do Dente de Buda, considerada o mais precioso objeto religioso do budismo cingalês.

Ao contrário de outras antigas capitais do Sri Lanka, como Anuradhapura ou Polonnaruwa, que acabaram abandonadas após invasões e mudanças políticas, Kandy nunca perdeu completamente a sua relevância. Mesmo depois da conquista britânica, em 1815, continuou a ser o principal centro religioso da ilha, preservando cerimónias, tradições e instituições que permanecem praticamente inalteradas até aos dias de hoje.

Para os habitantes locais, Kandy não representa apenas uma cidade histórica. É um verdadeiro símbolo da identidade nacional. Muitos cingaleses visitam-na em peregrinação pelo menos uma vez na vida, sobretudo para prestar homenagem à Relíquia do Dente de Buda. Durante o famoso festival Esala Perahera, realizado entre julho e agosto, centenas de milhares de pessoas deslocam-se até à cidade para assistir a uma das maiores celebrações religiosas da Ásia.

A importância cultural de Kandy estende-se também às artes tradicionais. Foi aqui que se desenvolveram muitas das formas de dança, música e artesanato que hoje são consideradas património nacional. A chamada dança kandiana, caracterizada pelos seus trajes elaborados, tambores e movimentos acrobáticos, continua a ser apresentada em festivais e cerimónias religiosas por todo o país.

Em reconhecimento do seu extraordinário valor histórico e cultural, a UNESCO classificou o centro histórico de Kandy como Património Mundial em 1988. A organização destacou a cidade como um dos melhores exemplos de preservação da tradição budista e da arquitetura do antigo Reino de Kandy, sublinhando igualmente a sua importância para milhões de peregrinos budistas em todo o mundo.

As origens de Kandy

Muito antes de se tornar a última capital do Sri Lanka independente, a região onde hoje se encontra Kandy já era habitada por comunidades agrícolas que beneficiavam da fertilidade dos vales montanhosos e da abundância de água proveniente dos rios que descem das terras altas.

O nome “Kandy” resulta, na verdade, de uma adaptação feita pelos portugueses. Os habitantes locais chamavam-lhe Senkadagala, ou Senkadagalapura, uma designação cuja origem continua envolta em alguma incerteza. Existem várias teorias: uma delas atribui o nome a um eremita chamado Senkanda, que teria vivido numa gruta próxima; outra relaciona-o com uma rainha da antiga monarquia cingalesa; e há ainda quem defenda que deriva de uma árvore considerada sagrada que existia na região.

Quando os portugueses chegaram à ilha no início do século XVI, referiam-se frequentemente ao reino como Candea, uma simplificação da expressão cingalesa Kanda Uda Rata, que significa literalmente “o país das montanhas”. Com o passar do tempo, esta designação evoluiu para “Kandy”, nome pelo qual a cidade ficou conhecida internacionalmente.

Embora o povoamento da região seja muito anterior, foi apenas no século XVI que Kandy ganhou verdadeira importância política. Em 1592, o rei Vimaladharmasuriya I transferiu oficialmente a capital do reino para esta cidade, escolhendo-a pela sua excelente posição defensiva. Rodeada por montanhas, vales profundos e densas florestas, Kandy era extremamente difícil de conquistar para qualquer exército invasor.

A decisão revelou-se determinante para a história do Sri Lanka. Enquanto as cidades costeiras eram sucessivamente ocupadas por portugueses, holandeses e britânicos, Kandy transformou-se no último reduto da soberania cingalesa. Durante mais de dois séculos, os seus reis governaram a partir desta cidade, protegendo não apenas a independência política do reino, mas também as tradições budistas, a língua cingalesa e a cultura local.

Os portugueses chegaram à ilha em 1505 e rapidamente estabeleceram o controlo sobre vários portos estratégicos. Apesar de diversas campanhas militares, nunca conseguiram dominar Kandy de forma permanente. O terreno acidentado, coberto por densas florestas tropicais, dificultava o avanço dos exércitos europeus, que frequentemente enfrentavam emboscadas, doenças e dificuldades logísticas.

No século XVII, os reis de Kandy procuraram apoio da Companhia Holandesa das Índias Orientais para expulsar os portugueses. A aliança revelou-se eficaz e os portugueses acabaram por abandonar a ilha em 1658. No entanto, os holandeses rapidamente assumiram o controlo das zonas costeiras e passaram também a representar uma ameaça para o reino. Durante décadas, Kandy alternou entre períodos de conflito e de negociações diplomáticas, procurando impedir que qualquer potência europeia conquistasse o interior montanhoso.

Foi apenas com a chegada dos britânicos que o destino do reino mudou definitivamente. Após várias expedições militares fracassadas, os britânicos optaram por uma abordagem política. Em 1815, através da chamada Convenção de Kandy, conseguiram depor o último rei, Sri Wickrama Rajasinghe, com o apoio de alguns nobres locais descontentes. Este acordo marcou o fim da última monarquia independente do Sri Lanka e a integração de toda a ilha no Império Britânico.

Apesar da conquista, a população local não aceitou facilmente o novo domínio. Em 1817 e 1818 ocorreu a Rebelião de Uva, uma das maiores revoltas contra o poder britânico. Embora tenha sido duramente reprimida, permanece até hoje como um importante símbolo da resistência nacional cingalesa.

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