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O simbolismo do Dente de Buda

A Relíquia do Dente de Buda possui um significado que vai muito além do seu valor religioso. Para os budistas Theravada — corrente predominante no Sri Lanka, Tailândia, Myanmar, Camboja e Laos — representa uma ligação física ao próprio Siddhartha Gautama, o Buda histórico.

Segundo a tradição, após a cremação de Buda, várias relíquias foram distribuídas entre diferentes reinos asiáticos. Um dos dentes caninos terá sido preservado e levado para o Reino de Kalinga, na Índia. No século IV, quando o reino foi ameaçado por invasões, a princesa Hemamali e o príncipe Dantha transportaram secretamente a relíquia para o Sri Lanka, escondendo-a entre os cabelos da princesa para evitar que fosse descoberta.

Desde então, acreditava-se que quem protegesse a Relíquia do Dente possuía o direito divino de governar a ilha. Por essa razão, todos os reis cingaleses fizeram questão de manter a relíquia na capital do reino, construindo templos especialmente dedicados à sua guarda. Quando a capital mudava de localização, a relíquia acompanhava sempre a corte.

Ainda hoje, apesar de o Sri Lanka ser uma república, a relíquia continua a ser considerada um dos maiores símbolos da identidade nacional e religiosa do país. Milhares de peregrinos visitam diariamente o templo para prestar homenagem, oferecer flores de lótus e participar nas cerimónias religiosas.

Embora a relíquia propriamente dita permaneça guardada no interior de vários relicários dourados e não seja exibida ao público, o simples facto de estar presente no templo transforma a visita numa experiência profundamente espiritual para muitos fiéis.

A arquitetura do Sri Dalada Maligawa

O Sri Dalada Maligawa, ou Templo da Relíquia do Dente, constitui uma das maiores obras da arquitetura tradicional do período kandiano. Ao contrário dos enormes complexos religiosos de Anuradhapura ou Polonnaruwa, este templo destaca-se pela elegância, pelos detalhes decorativos e pela perfeita integração no antigo complexo real.

O edifício encontra-se rodeado por um fosso defensivo e por muralhas de pedra ornamentadas, conhecidas como Walakulu Bamma ou “Muralha das Nuvens”, decoradas com relevos ondulados que simbolizam nuvens em movimento. Esta decoração tornou-se uma das imagens mais características da arquitetura de Kandy.

O acesso faz-se através de uma entrada monumental protegida por esculturas tradicionais em pedra, incluindo as famosas pedras da lua (Sandakada Pahana), guardiões esculpidos e elegantes escadarias ornamentadas.

No interior predominam madeiras nobres ricamente trabalhadas, pilares esculpidos, tetos pintados à mão e delicados trabalhos em marfim e dourado. Muitos destes elementos refletem a influência da arte kandiana, caracterizada por padrões florais, figuras mitológicas e cores vibrantes.

A sala principal onde se encontra o relicário apresenta uma decoração particularmente luxuosa, com portas revestidas a ouro, esculturas minuciosas e uma sucessão de relicários em forma de estupa, colocados uns dentro dos outros para proteger a relíquia sagrada.

Ao longo dos séculos, o templo sofreu diversos danos provocados por guerras e atentados, mas foi sempre cuidadosamente restaurado, preservando a sua importância religiosa e artística.

O complexo do antigo Palácio Real e os seus museus

O Templo do Dente faz parte do antigo complexo do Palácio Real de Kandy, residência oficial dos últimos reis do Sri Lanka antes da ocupação britânica. Embora apenas parte das construções originais tenha sobrevivido, o conjunto continua a oferecer uma excelente perspetiva sobre a vida da corte kandiana.

Entre os edifícios mais importantes encontra-se o Magul Maduwa, ou Salão de Audiências, uma elegante estrutura em madeira sustentada por dezenas de colunas esculpidas. Era aqui que os reis recebiam emissários estrangeiros, realizavam cerimónias oficiais e tomavam decisões políticas. Foi também neste edifício que, em 1815, foi assinada a Convenção de Kandy, que colocou oficialmente o reino sob domínio britânico.

Outro espaço de destaque é o Museu Nacional de Kandy, instalado numa antiga ala do palácio. As suas salas exibem armas tradicionais, joias, mobiliário, manuscritos, objetos cerimoniais e vestuário utilizado pela família real, permitindo compreender melhor o funcionamento da monarquia kandiana.

Nas proximidades encontra-se ainda o Museu Budista Mundial, que reúne exposições dedicadas à expansão do budismo em vários países asiáticos. Através de maquetas, fotografias, esculturas e objetos religiosos, o museu mostra como esta religião evoluiu em diferentes culturas, desde o Sri Lanka até ao Japão.

Completa o conjunto o Museu Internacional do Budismo, instalado num edifício histórico restaurado, onde são apresentados artefactos, documentos e exposições temporárias relacionadas com a história e a difusão da religião budista.

Todo este complexo permite perceber como, em Kandy, o poder político e a autoridade religiosa estiveram intimamente ligados durante vários séculos.

O Lago de Kandy e a sua fauna

Apesar de ser totalmente artificial, o Lago de Kandy integra-se de forma tão harmoniosa na paisagem que muitos visitantes acreditam tratar-se de um lago natural. Construído em 1807 por ordem do rei Sri Wickrama Rajasinghe, ocupa hoje o coração da cidade e constitui um dos locais mais agradáveis para passear.

No centro do lago encontra-se uma pequena ilha que, segundo a tradição, foi inicialmente utilizada como jardim privado da família real e mais tarde adaptada pelos britânicos como depósito de munições. Atualmente permanece inacessível ao público, servindo de refúgio para várias espécies de aves.

A biodiversidade do lago surpreende quem percorre o passeio pedonal que acompanha as suas margens. É frequente observar garças-brancas, corvos-marinhos, guarda-rios, íbis, martins-pescadores e várias espécies de garças que permanecem imóveis junto à água à espera de capturar peixe.

Nas águas vivem numerosas carpas, tilápias e outros peixes de água doce, que atraem aves piscívoras durante todo o dia. Também são comuns tartarugas-de-água-doce e grandes lagartos-monitores (water monitors), que podem atingir mais de um metro de comprimento e são frequentemente vistos a nadar tranquilamente entre a vegetação.

Ao início da manhã, o lago ganha uma atmosfera particularmente serena, com a névoa a envolver as colinas circundantes e o som das aves a substituir o movimento da cidade. Já ao final da tarde, o reflexo do Templo do Dente e das montanhas sobre a água cria um dos cenários mais fotogénicos de Kandy.

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