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Há muito que a aldeia transmontana de Podence, no concelho de Macedo de Cavaleiros, fazia parte dos nossos planos para visitar. Ao longo dos anos, fomos acompanhando pela televisão o Carnaval de Podence, com os seus Caretos coloridos e destemidos. Comprovámos in loco que a experiência do “Entrudo Chocalheiro” é, de facto, incrível. O ambiente que se vive, com o envolvimento da comunidade transmontana, ao longo dos quatro dias da festa, é contagiante para os milhares de turistas que se acotovelam para ver passar os Caretos a chocalhar as raparigas ou para assistir à queima do Entrudo na Eira do Careto no último dia, considerado o ponto alto das festividades.

 

A origem

Tradição pagã alegadamente de origem céltica anterior à romanização na Península Ibérica, o “Entrudo Chocalheiro” está associado ao fim do inverno e ao início da primavera, momentos importantes no ciclo agrário, mas também à fertilidade.

Os “Caretos”, figuras masculinas e diabólicas, saem à rua, entre o Domingo Gordo e o dia de Carnaval, saltando e correndo freneticamente, chocalhando rigorosamente as raparigas solteiras numa espécie de ritual de iniciação, de passagem e de comportamento erótico-sexual. Os mais jovens são chamados de “facanitos”.

A tradição esteve perto de se perder nas décadas de 60 e 70 do século passado, devido ao fenómeno da emigração e à Guerra do Ultramar. Ao longo dos anos, resistiu ao despovoamento, reinventou-se e adaptou-se às novas realidades. Hoje, os Caretos não são só rapazes, solteiros e residentes. Participam nesta tradição rapazes e raparigas, homens e mulheres, solteiros e casados, residentes na aldeia, provenientes de outros locais das proximidades e emigrados noutros países, que “chocalham” mulheres solteiras e casadas, residentes ou turistas da aldeia, dando continuidade ao legado que herdaram de pais e avós.

 

O traje

O vermelho, o amarelo e o verde que dão cor aos trajes dos “Caretos” representam as cores da bandeira nacional, mas outras cores são igualmente utilizadas como o preto, o azul ou o rosa.

Os fatos são feitos a partir de colchas, com um padrão típico transmontano, e preenchidos por fileiras de franjas de lã de ovelha tingidas artesanalmente e cozidas à mão no fato.

As máscaras, em latão ou em couro, também são feitas de forma artesanal. Destaca-se o nariz saliente e pontiagudo.

Do traje do Careto fazem parte duas bandoleiras de campainhas que se cruzam na parte frontal do tronco e das costas, e um conjunto de 4 a 8 chocalhos pendurados à cintura, elementos que produzem a sonoridade associada a estas figuras.

Por fim, o traje fica completo com uma bengala ou um pau.

 

O reconhecimento internacional

A 11 de abril de 2002 nasceu a Associação Grupo de Caretos de Podence, com o objetivo de preservar e divulgar a etnografia da aldeia, focada na figura do Careto e no “Entrudo Chocalheiro” , quer a nível nacional quer no estrangeiro.

A 22 de fevereiro de 2004, é inaugurada a Casa do Careto, que dá a conhecer a tradição carnavalesca da aldeia de Podence, associada aos Caretos. Pinturas de vários artistas da região, os fatos, os chocalhos, as máscaras e toda a indumentária dos Caretos são alguns dos artigos em exposição.

A dia 12 de dezembro de 2019, o “Entrudo Chocalheiro” foi classificado Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO, feito que colocou a aldeia de Podence no palco internacional, contribuindo para um maior dinamismo turístico.

 

Arte urbana

O agradecimento a quem ajudou a candidatura está refletido num conjunto de murais de arte urbana, pintados por Ricardo Dobrões, conhecido como “Trip Dtos”, em várias casas da aldeia. Alguns dos grafitis retratam figuras típicas do “Entrudo Chocalheiro”, outros homenageiam figuras públicas como o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, o secretário-geral da Organização das Nações Unidas, António Guterres, ou o futebolista internacional Cristiano Ronaldo.

 

Igreja de Nossa Senhora da Purificação

Ao percorrer as ruas da aldeia de Podence, deparamos com a Igreja de Nossa Senhora da Purificação. Construída no final do século XVII, apresenta elementos arquitetónicos dos estilos barroco e neoclássico. A simplicidade do exterior contrasta com a riqueza do interior do templo, nomeadamente dos seus retábulos em talha dourada, pormenores em rococó e pinturas seiscentistas alusivas a Cristo e a Santo António. 

 

Fotografias

Vídeo


 

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