Há lugares no Alto Minho onde vale a pena ir sem pressa. O Santuário de Nossa Senhora da Peneda é um deles.
Chega-se à Peneda por estradas de montanha, deixando para trás as zonas mais povoadas de Arcos de Valdevez. À medida que a paisagem se torna mais agreste, aparecem as encostas, os afloramentos de granito e os vales profundos do Parque Nacional da Peneda-Gerês. Depois, quase escondido entre as montanhas, surge o santuário, encaixado junto ao rio da Peneda e protegido pelo enorme afloramento granítico conhecido como Penedo da Meadinha.
É um cenário pouco habitual para um templo desta dimensão. A igreja, as escadarias, as capelas e os antigos edifícios destinados aos peregrinos parecem fazer parte da própria montanha. E talvez seja essa uma das primeiras coisas que se percebe quando se chega à Peneda: aqui, o património e a paisagem são praticamente inseparáveis.
O santuário fica na freguesia da Gavieira, no concelho de Arcos de Valdevez, e integra a área do Parque Nacional da Peneda-Gerês. É também um dos lugares de culto mariano mais importantes do Alto Minho e continua a receber peregrinos portugueses e galegos, sobretudo durante a tradicional romaria de setembro.
Uma história que começou há muitos séculos
A história do Santuário de Nossa Senhora da Peneda é anterior ao edifício que hoje conhecemos.
O culto de Nossa Senhora das Neves está documentado no local desde a Idade Média e terá existido ali, antes do atual santuário, um espaço de culto de menores dimensões. A tradição relaciona ainda o desenvolvimento deste culto com a circulação dos monges do Mosteiro de Ermelo para o Mosteiro de Fiães, em Melgaço.
A história do lugar cruza-se, contudo, com várias lendas que foram sendo transmitidas ao longo das gerações.
A mais conhecida conta que, em 5 de agosto de 1220, uma pequena pastora terá visto Nossa Senhora no local onde hoje se encontra o santuário. Segundo a tradição, a Senhora apareceu primeiro sob a forma de uma pomba e pediu à menina que fosse construído ali um templo em sua honra. A pastora contou o que tinha visto, mas ninguém lhe deu crédito. Alguns dias depois, a aparição teria acontecido novamente, desta vez sob a forma de Nossa Senhora.
A lenda conta ainda que a Senhora pediu à pastora que fossem buscar a Roussas, em Melgaço, uma mulher chamada Domingas Gregório, que estava doente e não conseguia andar. A mulher teria sido levada até ao local e, perante a Senhora, recuperado a saúde.
Foi assim, segundo a tradição, que começou o culto neste lugar.
Existe também uma outra narrativa, ainda mais antiga, segundo a qual uma imagem religiosa teria sido escondida entre as fragas da Serra da Peneda por cristãos que fugiam perante a invasão muçulmana, por volta dos anos 716 ou 717.
São histórias que fazem parte da memória religiosa da Peneda, mas que devem ser entendidas como tradições e lendas associadas ao culto, e não como acontecimentos historicamente comprovados.
O que sabemos é que a devoção a Nossa Senhora das Neves se foi consolidando ao longo da Idade Média e que o pequeno espaço de culto acabou por dar lugar, muitos séculos depois, ao grande conjunto monumental que hoje encontramos.
O santuário que vemos hoje
A maior transformação da Peneda aconteceu entre os finais do século XVIII e o século XIX.
O atual santuário foi sendo construído em várias fases e a igreja ficou concluída no século XIX. É precisamente desta época que datam muitos dos elementos que dão ao conjunto a sua aparência monumental.
A igreja é o centro do santuário, mas não é, de todo, o único elemento que merece atenção. O conjunto inclui também os grandes terreiros, o Escadório das Virtudes, o Terreiro dos Evangelistas, o pórtico de entrada, os antigos edifícios destinados ao acolhimento dos peregrinos e uma longa Via Sacra composta por vinte capelas.
Tudo está organizado de forma a criar um percurso. Quem chega não encontra simplesmente uma igreja no meio da montanha. Vai passando por diferentes espaços, subindo escadarias, atravessando largos e aproximando-se progressivamente do templo.
É uma forma de arquitetura religiosa muito ligada à peregrinação e que tem uma clara relação com o modelo do Bom Jesus do Monte, em Braga.
O Escadório das Virtudes
Um dos primeiros elementos que chama a atenção é o Escadório das Virtudes, diante da igreja.
Foi construído em 1854 e apresenta as figuras da Fé, da Esperança, da Caridade e da Glória. A estatuária é atribuída ao mestre Francisco Luís Barreiros e está integrada numa composição de escadarias, patamares e fontes.
É um dos espaços mais bonitos do conjunto e também um dos que melhor mostra a influência do Santuário do Bom Jesus do Monte.
Quem já conhece o Bom Jesus encontrará algumas semelhanças, mas a Peneda tem uma característica que a distingue: aqui, a envolvente natural é muito mais presente. As escadarias e os elementos arquitetónicos são constantemente acompanhados pelas encostas graníticas e pela vegetação da serra.
Vale a pena subir devagar e olhar para trás de vez em quando. A perspetiva sobre os diferentes níveis do santuário vai mudando à medida que se avança.
O Terreiro dos Evangelistas e o grande conjunto monumental
A igreja é antecedida por vários espaços que fazem parte da composição do santuário. Entre eles está o Terreiro dos Evangelistas, associado às representações dos quatro evangelistas.
O conjunto prolonga-se depois pelos vários largos e escadarias até chegar à zona onde começa a Via Sacra.
Também o pórtico merece atenção. É uma estrutura de carácter barroco, encimada pelas armas reais, e apresenta, do lado voltado para o santuário, um nicho com a imagem de Nossa Senhora da Encarnação.
São estes pormenores que tornam interessante percorrer o espaço com algum tempo disponível. A Peneda não se resume à fotografia da igreja vista de frente. Há muitos elementos para descobrir ao longo do percurso.
As vinte capelas da Via Sacra
Depois dos espaços monumentais junto à igreja, o santuário prolonga-se pelo vale através de uma alameda arborizada.
Ao longo de cerca de 300 metros distribuem-se vinte capelas que representam episódios da vida de Cristo, com particular destaque para a Paixão.
A Via Sacra é anterior à igreja atual e foi sofrendo alterações ao longo do tempo. O seu desenho e a forma como acompanha a paisagem são uma das características mais interessantes do conjunto.
Aqui percebe-se melhor o verdadeiro significado de um santuário de montanha.
O visitante vai avançando de capela em capela, entre árvores, escadarias e muros de pedra, enquanto a paisagem se abre e fecha à sua volta. Não é necessário ser peregrino ou ter uma motivação religiosa para apreciar o percurso. Para quem gosta de história, arquitetura, fotografia ou simplesmente de lugares diferentes, esta é provavelmente uma das partes mais interessantes da visita.
Os antigos dormitórios dos peregrinos
A Peneda recebeu durante séculos um grande número de peregrinos e essa realidade deixou marcas na própria arquitetura.
Junto ao grande terreiro encontram-se os antigos edifícios destinados ao acolhimento dos romeiros, conhecidos como “quarteis”. Eram espaços onde os peregrinos podiam ficar durante a sua passagem pelo santuário.
Hoje estes edifícios têm outra utilização, mas continuam a ser uma parte importante da leitura do conjunto. Sem eles, seria mais difícil perceber a dimensão que as peregrinações tiveram na história da Peneda.
O santuário não era apenas um lugar onde as pessoas chegavam, entravam na igreja e regressavam a casa. Para muitos peregrinos, a viagem demorava tempo e implicava permanecer no local, sobretudo durante as grandes celebrações.
Uma devoção que atravessa a fronteira
A proximidade da Galiza ajudou a transformar Nossa Senhora da Peneda numa devoção que ultrapassa a fronteira.
Ao longo dos séculos, o santuário recebeu peregrinos de várias zonas do Alto Minho e também da Galiza. Essa ligação continua bem presente nas grandes festas de setembro, quando os romeiros galegos têm uma presença particularmente significativa.
A Peneda é, nesse sentido, um lugar onde a fronteira política entre Portugal e Espanha pesa menos do que a história e as tradições partilhadas pelas populações dos dois lados.
A Romaria da Senhora da Peneda
É no início de setembro que o santuário ganha uma animação muito diferente da que encontramos durante o resto do ano.
A tradicional Romaria da Senhora da Peneda realiza-se na primeira semana de setembro e é uma das grandes festas religiosas e populares do Alto Minho.
Durante estes dias, o silêncio habitual da montanha dá lugar ao movimento dos romeiros, às celebrações religiosas e ao ambiente de festa que acompanha a romaria. É uma tradição com raízes profundas nas comunidades locais e que continua a atrair milhares de pessoas.
Existe inclusivamente um dia dedicado aos romeiros galegos, numa expressão clara da ligação histórica entre a Peneda e a Galiza.
Para quem quer conhecer o lado mais tradicional do santuário, setembro é uma altura particularmente interessante. Para quem prefere fotografar com tranquilidade, percorrer as capelas sem grandes multidões ou simplesmente desfrutar do silêncio da serra, será melhor escolher outra época do ano.
Monumento Nacional
A 12 de outubro de 2023, o Santuário de Nossa Senhora da Peneda foi classificado como Monumento Nacional.
A classificação reconhece o conjunto como um exemplo particularmente importante de santuário de montanha, tendo em conta não apenas a igreja, mas também as escadarias, os largos, as capelas, os edifícios de apoio aos peregrinos e a relação de todo o conjunto com a paisagem.
Dois dias antes, a Romaria da Senhora da Peneda tinha sido inscrita no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial.
São duas distinções diferentes, mas que ajudam a perceber a importância do lugar: por um lado, existe um património arquitetónico e artístico de grande valor; por outro, existe uma tradição viva que continua a fazer parte da identidade das comunidades.
Um santuário que está a ser recuperado
A Peneda entrou recentemente numa nova fase da sua história.
Depois de obras de reabilitação, o santuário reabriu ao público em agosto deste ano. A intervenção procura recuperar o edifício e melhorar as condições para receber visitantes e peregrinos, preservando ao mesmo tempo o seu valor histórico e artístico.
As obras não se limitam ao interior. Estão previstas intervenções nas portas, janelas, pinturas e torres, bem como no adro e em algumas das estruturas de apoio. O projeto inclui ainda a recuperação da área envolvente, de um miradouro sobre a cascata junto ao santuário e do Escadório das Virtudes.
Segundo a informação disponível, a conclusão dos trabalhos está prevista para o final deste ano, a tempo das comemorações dos 170 anos do santuário, que decorrerão ao longo de 2027.
É uma intervenção importante para garantir a conservação de um monumento que está exposto às condições particularmente exigentes da montanha e que continua a receber um número significativo de visitantes.
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